Os 5 Movimentos- Bases do conhecimento da Medicina Tradicional Chinesa.

Teoria dos 5 Movimentos

A teoria dos 5 movimentos (ou elementos) é, certamente, umas das mais complexas teorias da filosofia chinesa e a mais rica em detalhes.

Enquanto a teoria do Yin-Yang afirma que o universo é regido por duas forças, a teoria dos 5 movimentos diz que o universo é regido por 5 elementos que influenciam a vida dos seres vivos.

O desenvolvimento de todas as coisas seria, portanto, o resultado do movimento contínuo e da dominância dos 5 elementos.

Origem da Teoria dos 5 Movimentos

A teoria dos 5 movimentos foi primeiramente documentada na China no Período dos Estados Guerreiros (221-476 a.C.) e coexistiu independentemente da teoria do Yin e Yang.

Pintura da corte do imperador Taizu de Song, que fundou a dinastia Song e unificou a China. Fonte AulaZen

Foi durante a Dinastia Song (960-1279 d.C.) que começou a fusão entre os dois sistemas e que o sistema dos 5 elementos foi utilizado para diagnóstico e tratamento de doenças pela primeira vez.

Foi elaborada pelos filósofos chineses para explicar o comportamento da natureza e dos seres vivos e considera que o universo é formado pelo movimento e a transformação dos 5 princípios representados pelos elementos: madeira, fogo, terra, metal e água.

Esta teoria é utilizada na medicina tradicional chinesa para explicar a fisiologia e patologia, assim como as relações entre o organismo e o meio em que se vive.

Relações dos  5 movimentos.

Primeiramente, considera-se que estes 5 movimentos têm relações constantes entre eles originando e condicionando um ao outro. Representam, portanto, as qualidades fundamentais de toda a matéria no universo e cada elemento tem sua própria qualidade particular de Qi, ou seja, de energia.

Cada um dos elementos possui uma natureza especial cujas características influenciam a dinâmica das nossas vidas. Além disso, segundo a MTC, cada ser vivo tem uma afinidade com pelo menos um dos elementos.

Esta teoria baseia-se nas propriedades dos 5 elementos – madeira, fogo, terra, metal, água – sendo suas características específicas, a partir de similitudes e analogias, relacionadas com a fisiologia dos Órgãos e Vísceras (Zang Fu) e dos tecidos do corpo.

Assim sendo, os órgãos e tecidos são classificados em 5 categorias de acordo com os 5 Elementos, e seus movimentos, para se observar suas relações internas.

Na Medicina Tradicional Chinesa, existem 5 órgãos fundamentais, cada um relacionado a um elemento específico:

  • Fígado e Madeira;
  • Coração e Fogo;
  • Baço e Terra,
  • Pulmões e Metal;
  • Rim e Água.

Cada órgão está, por sua vez, relacionado a uma víscera:

  • Fígado e Vesícula Biliar;
  • Coração e Intestino Delgado;
  • Baço e Estomago;
  • Pulmões e Intestino Grosso;
  • Rim e Bexiga.

Além disso, cada órgão/víscera está relacionado com outras estruturas anatômicas como tecidos (tendões, vasos sanguíneos, musculatura, pele, ossos) e órgãos sensoriais (olhos, língua, boca, nariz, orelhas).

A relação entre os 5 movimentos, órgãos e vísceras – Teoria Zang Fu

Para facilitar o entendimento do texto é, primeiramente, importante explicar o que é Zang Fu.

Zang é o termo utilizado para os órgãos que são sólidos e densos, sendo considerados Yin por causa destas características. São 5: fígado, coração, baço-pâncreas, pulmão e rim. Estes produzem, transformam, e armazenam.

Fu é o termo utilizado para as vísceras, que possuem cavidade, sendo consideradas Yang. Estes recebem, digerem/transformam, excretam. São 6: a vesícula biliar, intestino delgado, SanJiao, estômago, intestino grosso e bexiga.

Além disso, existem ainda as chamadas vísceras de comportamento “curioso” ou vísceras extraordinárias: vesícula-biliar, cérebro, medula, ossos, vasos sanguíneos e útero.

A cada órgão Yin (Zang) corresponde determinada víscera Yang (Fu).

Na Medicina Tradicional Chinesa, o mais importante não é o modo com que um órgão funciona, e sim sua função energética. De fato, os orientais viam os órgãos muito mais como um símbolo de uma atividade energética do que propriamente por sua atuação fisiológica. Assim, ainda segundo a Medicina Chinesa, cada órgão possui propriedades que não tem relação com o que sabemos sobre a fisiologia estudada no Ocidente.

Os Zang Fu são, portanto, os principais órgãos do nosso corpo. Por sua vez, estes estão carregados de energias que, enfim, são distribuídas pelo nosso corpo através de canais chamados de Meridianos. Assim, cada canal de energia está associado a um órgão e/ou víscera do corpo.

Os órgãos Zang-Fu possuem funções fisiológicas diferentes, entretanto existe uma relação muito próxima entre eles na manutenção das funções normais do organismo. Um entendimento da teoria do relacionamento entre os órgãos Zang e Fu é importante para a diferenciação clínica das síndromes e tratamentos.

Cada par Zang-Fu, portanto, desempenha funções próprias, bem definidas. Além disso, mantêm relações interdependes entre si e funcionam numa unidade e por isso mesmo é importante preservar entre eles esse equilíbrio-dinâmico.

Correspondências dos 5 movimentos

O modelo de correspondências dos 5 movimentos é amplamente utilizado no diagnóstico. Ele é baseado, sobretudo, na correspondência entre elementos e o odor, cor, sabor e som.

Cinco Elementos Madeira Fogo Terra Metal Água
Órgãos (Zang) Fígado Coração Baço-pâncreas Pulmão Rins
Víscera (Fu) Vesícula Biliar Intestino Delgado Estômago Intestino Grosso Bexiga
Manifestação Externa Olhos Língua Boca Nariz Orelha
Manifestação Energética Unha Tez do Rosto Lábios Pele e pelos Cabelo
Energia Vento Calor Umidade Secura Frio
Cor Verde Vermelho Amarelo Branco Preto
Emoção Raiva Alegria Preocupação Tristeza Medo

(Fonte: MACIOCIA, 2007)

Os Ciclos na Teoria dos 5 movimentos

A teoria dos 5 Movimentos possui, ainda, 3 Ciclos:

  1. Ciclo de Geração;
  2. Ciclo de Dominância;
  3. Ciclo de Contra-Dominância.

1. Ciclo de Geração (Ciclo Sheng)

Os elementos estimulam e nutrem-se uns aos outros. Metaforicamente, esta relação representa-se como mãe e filho, na qual um elemento dá origem a outro.

Isto expressa-se da seguinte maneira: a Madeira dá origem ao Fogo; o Fogo dá origem à Terra; a Terra dá origem ao Metal; o Metal dá origem à Água; e, enfim, a Água dá origem à Madeira.

Assim, a madeira alimenta o fogo, o fogo produz cinza, que se transforma em terra, a terra dá origem ao metal formando minerais, o metal ajuda e nutre a água fornecendo substâncias vitais para a sua função de dar vida e a água por sua vez estimula o crescimento da madeira.

2. Ciclo de Dominância (Ko)

Os chineses observaram que em todos os processos do universo, além do gerador, existe sempre um controlador. Como vimos, cada órgão possui uma natureza de cada elemento e a sua harmonia fisiológica. Todavia, tudo depende de um comportamento intrínseco entre as cinco fases.

Desta forma Madeira controla a Terra (raízes que crescem e dominam a terra), Fogo controla o Metal (derretimento), Metal controla Madeira (cortando-a), Terra controla a Água (retenção), Água controla o Fogo (apagando).

Para representar este ciclo, os elementos são colocados no diagrama tradicional com a forma de um Pentagrama. Desta forma, manifesta-se a capacidade da natureza em manter os elementos debaixo de um controle de harmonia, ou seja, de moderar o crescimento indiscriminado dos elementos para impedir que se originem outras patologias.

3. Ciclo de Contra-Dominância

O ciclo de Contra-Dominância ocorre em casos extremos de alterações energéticas. Ela ocorre, portanto, quando o dominado encontra-se muito forte ou o dominador muito fraco. Dessa forma, o dominado passa a atacar o dominador.

Neste caso, a madeira afeta o metal, o fogo afeta a água, a terra afeta a madeira, o metal afeta o fogo e, por último, a água afeta a terra.

Os 5 tipos constitucionais

Dentro dos aspectos dessas interações, correspondendo aos elementos específicos, surge a composição de determinados tipos constitucionais e seus comuns desequilíbrios. Ou seja, um tipo constitucional indica a tendência a determinada desarmonia e, portanto, nos permite prever e prevenir de maneira adequada uma possível evolução patológica.

Madeira:

Elemento Yang que representa a força e o crescimento da expansão.

A estação da primavera rege e dá as características a este elemento. O tipo madeira geralmente apresenta uma constituição forte, não se cansa facilmente. Tendem, inclusive, a ser magros.

Quando em desequilíbrio podem ter manifestações de fúria e ficam “cegos de raiva”. Podem, além disso, desenvolver patologias relacionadas ao fígado, vesícula biliar, tendões (tendinites, tenossinovites) e articulações (doenças reumáticas).  O Fígado é o principal órgão deste elemento.

Fogo

Elemento Yang que simboliza a instabilidade, mudanças e impermanências.

O tipo fogo é um individuo que, sem dúvida, alegra o ambiente. É, de fato, extrovertido, expansivo e cheio de vida.  Podem ter problemas de atenção e concentração devido ao excesso de ansiedade e euforia.

Quando em desarmonia, um individuo deste elemento pode ter um descontrole da atividade levando, portanto, a um desgaste da energia. O Coração é o órgão principal deste elemento. Quando este órgão se encontra em desequilíbrio, manifesta-se na circulação sanguínea, excessos de suor, transtornos do ritmo cardíaco, estados de loucura, riso desenfreado.

Terra

Elemento Yin. Protege, nutre, gera.

Os indivíduos de constituição terra transmitem segurança, são maternais, serenos e especialmente atenciosos. Apresentam massa muscular forte e resistente. Em desequilíbrio o tipo terra pode se tornar preocupado, paranoico, obsessivo, comilão com tendência à patologias relacionadas ao sistema digestivo e dores musculares.

O elemento influi sobre as formas em geral e em particular sobre a constituição dos músculos.

A preocupação e o “excesso de pensamento” são, portanto, as principais causas dos distúrbios emocionais dos indivíduos de “terra”. O Baço/Pâncreas e Estômago são os órgãos principais deste elemento. As patologias do elemento terra manifestam-se, de fato, afetando o funcionamento do estômago e do baço, produzindo sintomas de depressão mental, úlceras, tendência à obesidade, alterações digestivas.

Metal

Elemento Yin. Representa o poder de agregar, condensar, tornar rígido, solidificar.

O tipo metal apresenta constituição longilínea (pernas e braços longos), geralmente são magros, sensíveis, reservados, justos e responsáveis. Entretanto, a Tristeza é a emoção que desequilibra o elemento metal. Por isso, podem apresentar falta de vitalidade, aparência cansada. Além disso, podem se tornar ranzinzas, mal humorados e ter tendência ao isolamento.

Sofrem, sem dúvida, com a secura e podem desenvolver patologias respiratórias, sinusites e rinites, além dos comuns problemas dermatológicos.

Pulmão é principal órgão deste elemento.

Água

Elemento Yin que representa a fluidez, a capacidade de purificar e se adaptar.

A estação da água é o inverno. Os indivíduos tipo água são afetados pela emoção do medo. Portanto, quando encontram-se em desequilíbrio emocional apresentam-se inseguros, sofrem com o frio, e têm tendência a desenvolver problemas psíquicos e patologias relacionadas aos rins, bexiga ou ossos. Além disso, indivíduos de água têm tendência a engordar e a ter edemas (inchaços).

O Rim, controlado pelo elemento água, é o órgão principal deste elemento. Segundo a MTC os Rins germinam a vida e são responsáveis pelo impulso da vontade e a energia da libido (desejo). Por deficiência, as funções dos Rins produzem anomalias que afetam os fluidos, os ossos, os órgãos sexuais assim como as suas funções. Podem, além disso, ocorrer também sintomas como falta de atenção, deterioração da memória, do entusiasmo e da vontade.

 

Referencias Bibliográficas:

DE BARROS, L.C. Medicina Chinesa- Acupuntura e Fitoterapia. Editora Caras; São Paulo, 2004.

HICKS, A.; HICKS J.; MOLE, P. Acupuntura Constitucional dos Cinco Elementos, Roca, São Paulo, 2007. P. 5-8.

LUNA, S.; JOAQUIM, J. Apostila I Curso Pratico de introdução a acupuntura em Pequenos e Grandes Animais, UNESP, Botucatu, Agosto 2008.

MACIOCIA, G. Os Fundamentos da Medicina Chinesa – Um texto Abrangente para Acupunturistas e Fitoterapeutas. ROCA, São Paulo, 2007.

PERINI, M. Terapia Dietética Chinesa. Edições Loyola. São Paulo, 2003.

WEN, T. S., Acupuntura Clássica Chinesa, Cultrix São Paulo, 2009. Cap.2

VECTORE, C. “Psicologia e Acupuntura: Primeiras Aproximações” Revista Psicologia Ciência e Profissão, 2005, 25 (2), p. 266-285

Sites:

Medicina Chinesa

Flor de Ameixeira

 

 

 

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